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    Ressocializar é preciso


    Adolescentes apreendidos em Manaus e a esperança de uma nova vida

    Centros Socioeducativos em Manaus testam medidas educativas com adolescentes infratores e há muitas histórias positivas

    Os crimes frequentes praticados por menores estão roubo, com 48%, tráfico de drogas, 18% e Homicídio apresentando 18% | Foto: Leonardo Mota

    Os crimes frequentes praticados por menores estão roubo, com 48%, tráfico de drogas, 18% e Homicídio apresentando 18%
    Os crimes frequentes praticados por menores estão roubo, com 48%, tráfico de drogas, 18% e Homicídio apresentando 18% | Foto: Leonardo Mota
     

    Manaus - “Recomeçar é possível e eu sou a prova viva disso, quero mudar de vida", afirmou Hans Miller Farias, ex-interno do Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa, localizado na rua Vivaldo Lima, na Zona Centro-oeste de Manaus.

    O jovem de 20 anos contou ao Portal EM TEMPO que, após as atividades desenvolvidas no Centro, traçou novas metas e planeja concluir os estudos. A vida que levou no passado, com transgressões e abusos, já não mais faz parte de seus planos.

    O jovem faz parte da estatística daqueles que aprenderam na prática que o crime não compensa. Conforme uma pesquisa realizada pela Vara de Execuções de Medidas Socioeducativas do Tribunal de Justiça, realizada de maio de 2018 a maio de 2019, o índice de reincidência  entre os jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, em regime fechado, nos centros socioeducativos da capital, é de  apenas 22,6%

    Hans Miller, ex- interno do Dagmar Feitosa aprendeu profissão e quer buscar uma nova vida
    Hans Miller, ex- interno do Dagmar Feitosa aprendeu profissão e quer buscar uma nova vida | Foto: Leonardo Mota
     

    Internação 

    Hans Miller disse que nasceu e cresceu no município de Ipuxuna (distante 1.941 quilômetros de Manaus) e aos 18 anos, após cometer um ato ilícito, foi encaminhado ao Dagmar Feitosa, onde ficou durante um ano.  Ele disse, ainda, que durante o tempo que ficou recluso encontrou novas oportunidades de crescimento pessoal e profissional após a internação.

    “Cresci sem referencial de pai em uma cidade onde os jovens não têm muitas oportunidades. Eu nunca tinha aprendido a mexer em uma máquina de roçagem. No Dagmar aprendi a roçar, a cuidar da limpeza, fiz informática básica e avançada”, frisou Hans, acrescentando que hoje é um dos servidores do Centro Socioeducativo e auxilia na área de panificação.

    O diretor da instituição, Antônio de Lima, disse ao Portal Em Tempo que o Centro tem  capacidade para comportar 62 pessoas e atualmente dá assistência a 49 adolescentes, com idades ente 16 e 18 anos.

    O diretor da instituição disse que atualmente dá assistência a 49 adolescentes
    O diretor da instituição disse que atualmente dá assistência a 49 adolescentes | Foto: Leonardo Mota
     

     Jovens que cometeram atos infracionais graves como homicídio, estupro e latrocínio, também são encaminhados para o local. Adolescentes podem ficar internados no centro de 6 meses a 3 anos, em cumprimento as recomendações do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

    “A principal finalidade do nosso trabalho é a ressocialização e reintegração desses jovens ao mercado de trabalho. Ao chegarem aqui cumprem toda uma atividade de cunho pedagógico. As atividades são pensadas para o redirecionamento de vida, assim seguem uma rotina pesada de atividades”, disse o diretor.

    Conforme a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), entre os crimes frequentes praticados por menores estão roubo, com 48%, tráfico de drogas, 18% e Homicídio apresentando 18%.

    Antônio de Lima disse que a metodologia utilizada para o processo de reintegração é de praticar a retribuição. Ele frisou que, por meio dos trabalhos de inserção dos jovens ao mercado de trabalho, eles observam que para obterem recursos econômicos, não precisam roubar ou traficar. 

    “Procuramos olhar para a pessoa, e não para o ato que ela cometeu. Enxergamos o sujeito, que em algum momento fez cosias erradas. A partir disso traçamos um plano de vida para que ele se encontre na medida socioeducativa, o que resulta no registro da menor taxa de reincidência do Brasil”, disse Antônio. 

    A Sejusc frisou ainda, que dos 75 adolescentes alcançados pela extinção ou progressão da medida, em um ano, 17 reincidiram.

    O órgão disse que três deles voltaram ao sistema socioeducativo pela internação em unidade especializada e os outros 14 ingressaram no sistema penal por prática de crimes após os 18 anos. 

    Zonas Leste e Norte

    Ao ser questionado sobre as zonas da capital que apresentam maiores índices de demanda pelos centros socioeducativos, o diretor frisou que as zonas leste e norte indicam o maior quantitativo de jovens envolvidos em crimes.Antônio disse, ainda, que muitos adolescentes encaminhados para as instituições ocupam funções importantes dentro de facções criminosas. 

    “Grande parte deles vêm de famílias desestruturadas. Ou o adolescente é criado só pelo pai, ou apenas pela mãe, ou tia. E quando é criado por pai e mãe, o pai é alcoólatra. Outra questão que faz os jovens irem para a criminalidade,é a econômica. A maioria vêm de contexto de baixa renda”, afirmou o diretor, acrescentando que a maior parte do interno do centro socioeducativo são do interior do Amazonas, sendo 25 de municípios do Estado e 24 da capital.

    Elenildo de Melo, de 18 anos, natural de Guajará-Mirim (distante 1.036 quilômetros de Manaus) cumpriu um ano e oito meses de reclusão no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa.

    Elenildo de Melo, de 18 anos, cumpriu um ano e oito meses de reclusão no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa
    Elenildo de Melo, de 18 anos, cumpriu um ano e oito meses de reclusão no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa | Foto: Leonardo Mota
     

    Ao Portal Em Tempo, ele disse que durante o tempo em que esteve na instituição, recebeu apoio e incentivo para terminar os estudos e acrescentou que é possível fazer amigos no local. “Hoje a minha mente é outra. E agradeço todos os dias pelo acolhimento que recebi. Quero terminar os meus estudos e seguir em frente”, afirmou o jovem, que auxilia no setor almoxarifado da instituição.

    O Centro conta com cerca de 50 servidores entre pedagogos, assistente social, professores de informática. Nele são desenvolvidas atividades como jardinagem, panificação e podem ser nivelados, no ensino básico, mediante o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

    Além disso, os internos são avaliados em relação ao cumprimento das rotinas que evolvem a limpeza do alojamento, sociabilidade e companheirismo, dentre outros itens, ao seguirem a trilha do projeto “Teens ao Máximo”.

    Prêmio Innovare

    A Sejusc disse que o projeto está concorrendo ao Prêmio Innovare e destaca a educação como base dos serviços oferecidos na unidade. Uma rotina que conta com aulas regulares, oficinas de fabricação de pães, hortas, acompanhamento médico e psicológico, assistência social e cursos profissionalizantes.

    Alojamentos coloridos: acolhimento e inserção 

    Os adolescentes cumprem as medidas por níveis e cores de alojamento, onde são utilizadas diferentes técnicas de ensino. O alojamento verde, local onde o adolescente fica quando chega ao Centro, busca criar sentimentos de acolhimento e respeito.

    No alojamento amarelo é realizado o Plano Individual de Atendimento e inserção nos projetos profissionalizantes. Neste nível, o adolescente descobre seus talentos e fraquezas.

    No alojamento azul, os internos são motivados a construir um plano de vida a curto e médio prazo, além disso, são também inseridos em projetos profissionalizantes.

    Centro Raimundo Parente

    O Estado conta com o Centro Socioeducativo Senador Raimundo Parente, situado na avenina Noel Nutels, bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus e o Centro Socioeducativo de Internação Feminina, localizado na Travessa A, no bairro Alvorada 1, Zona Centro-oeste. 

    Estas instituições constituem medida privativa de liberdade imposta ao adolescente autor de ato infracional caracterizado por grave ameaça à vida ou violência contra pessoa, adolescente reincidente em atos infracionais graves e ou descumprimento retirado de medidas socioeducativas menos gravosas anteriormente expostas.

    Estas instituições constituem medida privativa de liberdade imposta ao adolescente autor de ato infracional caracterizado por grave ameaça à vida
    Estas instituições constituem medida privativa de liberdade imposta ao adolescente autor de ato infracional caracterizado por grave ameaça à vida | Foto: Leonardo Mota
     

    A internação de um adolescente dura no máximo três anos. O menor  é submetido a avaliação institucional a cada seis meses e há possibilidade de substituição de medida para o meio aberto. 

    Internação provisória

    No Amazonas também há a Unidade de Internação Provisória, situada no bairro Dom Pedro II, na Zona Centro-oeste de Manaus. A Sejusc afirmou que a Unidade tem capacidade para 48 adolescentes e tem como principal característica sua natureza cautelar, destinada ao adolescente em período de apuração de processo de ato infracional.

    Não se constitui especificamente como uma medida socioeducativa, embora possua, de igual modo, caráter pedagógico. Tem prazo máximo de, preferencialmente, 45 dias. A permanência do adolescente depende de decisão judicial. 

    Semiliberdade Masculino

    O Centro Socioeducativo de Semiliberdade Masculino tem a capacidade de atender até 20 adolescentes. Localizado, também no bairro Dom Pedro II, o centro tem aplicação tanto como primeira medida quanto por progressão, com obrigatoriedade de escolarização e profissionalização. . 

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