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    Educação


    Com corte do MEC, universidades federais do AM estão ameaçadas

    Medidas “brutais” prejudicam iniciação científica, pós-graduação e até mesmo contribuir para evasão das universidades

    Cortes na Ufam impactam diretamente na manutenção da universidade | Foto: Divulgação

    Manaus - Os cortes do governo federal para o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam) têm gerado grande desconforto, especialmente entre docentes e alunos. Juntos, os espaços de educação podem ter um prejuízo de bem mais que R$ 65 milhões. Na Ufam, os cursos de pós-graduação indígena estão parados e menos da metade dos estudantes da iniciação científica estão recebendo bolsa. 

    De acordo a Pró-Reitoria de Planejamento e Administração do Ifam, o déficit está em torno de R$ 27 milhões para o Instituto Federal. A Ufam informou que está no aguardo de um novo posicionamento do Ministério da Educação (MEC) sobre o contingenciamento para oferecer um parecer atualizado. Os dados mais atualizados, de maio deste ano, apontam que a universidade sofreu um corte de R$ 38 milhões. 

    Deste montante bloqueado na Ufam, R$ 31,3 milhões são referentes a “despesas correntes”, que abrangem, entre outros itens, o custeio de projetos como Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic); Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibit); Programa Atividade Curricular de Extensão (Pace); Programa de Apoio à Realização de Cursos e Eventos (Parec); monitoria e estágio obrigatório.

    O corte de menos de 20,91% nestas despesas gera um déficit de R$ 29 milhões,  afeta pesquisas correntes e também a manutenção da universidade, água, energia, limpeza, segurança, entre outras demandas. Tendo como base o ano de 2018, a Ufam precisa de R$ 84,5 milhões para manutenção, com este corte, a universidade passa a ter disponível somente R$ 54,8 milhões

    "Ataque brutal à universidade pública"

    “A gente considera um ataque brutal à universidade pública”, afirma o vice-presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA), Luiz Fernando Santos. Ele explica que o contingenciamento não só impede o bom funcionamento da educação, como inibe a universidade de exercer sua função social.  

    O professor e vice-presidente também coordena um dos cursos de licenciatura indígena da Ufam. Ele informa que todos os cursos deste setor estão parados por conta de verbas que não foram repassadas.  O que ele classifica como uma grande perda para o próprio Estado, uma vez que o Amazonas deveria ser referência no assunto. 

    A iniciação científica também está sofrendo com a redução de orçamento. O professor relata que inscreveu quatro projetos e apenas dois receberam bolsas. “De todos nós, professores que tivemos projetos aprovados, apenas metade ou menos que isso recebem bolsa. Isso significa que grande parte dos alunos terá que atuar de forma voluntária, sem ajuda de custo”. 

    Essa falta de apoio pode diminuir até o período de permanência dos alunos na universidade. A Adua já observou o esvaziamento dos cursos e está apurando os impactos em números para fornecer dados detalhados. 

    Estudantes

    João Victor Barros, 21, presidente da União Estadual dos Estudantes do Amazonas (UEE/AM) enfatiza que diversos estudantes serão prejudicado, perderão suas bolsas de pesquisa e podem ficar sem estudar por falta de energia.

    "Recentemente construímos três grandes manifestações acerca do contingenciamento das verbas da educação. O governo, de forma equivocada, anunciou o corte. Segundo eles, as universidades vêm obtendo baixo desempenho e são utilizadas como local de balbúrdia, no entanto, sabemos que não é isso, a universidade vem desempenhando um papel importante no desenvolvimento do nosso país", relata. 

    Presidente da UEE/AM conta que o posicionamento deles é totalmente contrário aos ataques proferidos a universidade
    Presidente da UEE/AM conta que o posicionamento deles é totalmente contrário aos ataques proferidos a universidade | Foto: Divulgação
     

    João cita como exemplo a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que teve que paralisar suas atividades temporariamente por falta de luz.  "Nosso posicionamento é totalmente contrário aos ataques proferidos a universidade", afirma.

    No Ifam, os alunos já estão sofrendo as consequências dos cortes. Kallel Naveca, 19, estudante técnico subsequente em Recursos Pesqueiros, do Campus Manaus Zona Leste, conta que a maioria dos cursos da unidade estão sem realizar visitas técnicas devido à falta de recursos para pagar o seguro que garante que os alunos e suas famílias sejam ressarcidos em caso de acidentes. Estas visitas são importantes e frequentes por se tratar de um colégio agrícola. 

    Alunos do Ifam já sentem na pele o impacto da falta de recursos.
    Alunos do Ifam já sentem na pele o impacto da falta de recursos. | Foto: Divulgação
     

    O estudante relata ainda que faltam equipamentos nos laboratórios, o que prejudica o bom andamento de pesquisas e até os animais utilizados pelo curso de medicina veterinária, tiveram seu quadro reduzido. Além disso, Kallel conta que o número de bolsas de pesquisa diminuíram drasticamente, o que pode impactar na evasão escolar. "A gente não sabe até quando vai ter o funcionamento no Instituto Federal (IF), estamos sem perspectiva", conta. 

    "Nós, estudantes, vemos esse cenário com preocupação, pois já passamos inúmeras dificuldades para ter os equipamentos necessários para nossas pesquisas. A falta de mínimas explicações por parte do governo é o que mais dificulta nesse processo, ficamos sem perspectivas de até quando teremos condições de funcionamento completo", compartilha Kallel. 

    Aluna da Ufam, Rayane Garcia, conta que o campus de Manaus ainda não sofre tanto as consequências da baixa de orçamento, apesar de já terem sido cortadas três mil bolsas, os impactos no interior do Estado são maiores. A estudante se manifesta completamente contra as medidas do governo. 

    "Eu acho totalmente errado, não concordo, não podemos pensar num projeto de futuro sem resolver os problemas presentes. Estes cortes são errados, porque afetam diretamente o funcionamento da universidade", desabafa. 

    Future-se 

    Uma das soluções apresentadas pelo governo federal foi o projeto Future-se. Um programa que tem a proposta de promover autonomia financeira nas universidades e institutos federais por meio de incentivo à captação de recursos próprios e ao empreendedorismo. A adesão ao Future-se é voluntária e, de acordo com o MEC, mesmo com estes investimentos externos, a União manterá os recursos destinados às instituições. 

    "A 'saída' que é apresentada pelo governo federal é mais um retrocesso anunciado. O projeto Future-se não dialoga com os anseios da comunidade escolar, precariza o ensino técnico e abre para a iniciativa privada, dificultando cada vez mais o acesso ao Instituto", afirma Kallel. 

    Alunos se manifestam contra o projeto Future-se.
    Alunos se manifestam contra o projeto Future-se. | Foto: Divulgação
     

    Rayane também se manifesta contra. "Esse projeto Future-se é um impedimento de que mais pessoas possam entrar na universidade, principalmente estudante pobres. Ele fala de um financiamento por instituições privadas, só que a gente sabe que se não houver investimento, os estudantes vão ter que pagar", diz.

    No dia 7 de setembro, a União Nacional dos Estudantes e outros grupos estudantis farão manifestação às 15h na Praça da Saudade, Centro de Manaus, em prol da educação e da proteção da Amazônia. 

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