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    Luta e conquista


    Mulheres negras do AM buscam ascensão no mercado de trabalho

    Elas relataram suas lutas e como hoje, conseguiram superar e afirmar sua estabilidade

    Manaus 19.08.2020. Mulheres negras e a busca por ascensão no mercado de trabalho. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Historicamente, as mulheres negras precisaram lutar por muitos anos, e ainda precisam, para conseguir se inserir em profissões de maior reconhecimento no mercado de trabalho. No Brasil, a população preta feminina corresponde a 26,5%, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad).

    A desigualdade salarial também desfavorece a mulher negra frente a outros grupos sociais. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), elas recebem menos da metade do valor que um homem branco recebe, cerca de 44,4%, sendo a menor porcentagem de salário em relação aos outros grupos.

    Pesquisas da Universidade Federal da Bahia afirmam que o racismo institucional está interligado com todos os fatores que envolvem a população preta. O fato de uma mulher deste grupo tentar conseguir uma posição superior às popularmente impostas pela sociedade, como a de empregada, muitas vezes não é bem quisto por muitas pessoas, o que impacta na socioeconomia desta população.

    O EM TEMPO conversou com algumas mulheres que contaram relatos de dificuldades no mercado de trabalho e como, apesar disso, conseguiram reverberar a sua voz a tantas outras mulheres e conquistaram seu espaço.

    "Nunca era vista como advogada"

    Ana Carolina Amaral, 29, é advogada, presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas (OAB/AM), DJ e produtora cultural. Nasceu em uma família majoritariamente negra e durante seu crescimento foi criada aprendendo a valorizar e respeitar sua cor, raça e ancestralidade. Ela conta que ao chegar na vida adulta passou a ter um contato maior com pautas raciais, pesquisar sobre o assunto e chegar a esclarecimentos sobre sua identidade. 

    “Na faculdade eu sempre tentei me destacar e sempre tive na minha cabeça que eu precisava ser a melhor para ter algum tipo de validação, e no início da minha vida profissional eu comecei a perceber que o buraco era um pouco mais embaixo. Não era só eu ter um bom desempenho, ser uma boa profissional, a minha aparência, a forma como eu me apresentava ia ser um fator na forma como eu seria tratada, vista, abordada no meu ambiente de trabalho”, diz Ana.

    No início de sua carreira, logo após se formar, Carolina perdeu oportunidades de trabalho pela sua cor e pela vulnerabilidade social que se encontrava, e que isso a fez questionar se tudo o que havia feito não era suficiente para ter determinadas oportunidades.

    Carolina perdeu oportunidades de trabalho pela sua cor e pela vulnerabilidade social que se encontrava
    Carolina perdeu oportunidades de trabalho pela sua cor e pela vulnerabilidade social que se encontrava | Foto: Clara Hebron

    “Em uma situação, eu lembro que fui questionada de como iria fazer para me deslocar até o local de trabalho, falei que não tinha carro e que iria fazer o trajeto de ônibus e fui olhada de cima a baixo. Acho que não só o fato de ser negra, mas de estar ali em um momento de maior vulnerabilidade social, de não estar dentro dos padrões do que uma advogada recém-formada deveria estar”, conta.

    Ela revela que pouco tempo após se formar, começou a trabalhar em um escritório de advocacia. Por muitas vezes ouviu comentários sobre seu cabelo, por qual motivo havia deixado de alisar ou que as tranças que usava não era perfil de advogada, e passou por situações constrangedoras como não ser vista como advogada.

    “Muitas vezes eu chegava nos balcões das varas e era confundida com parte, nunca era vista como advogada, depois de alguns anos atuando acho que as pessoas se acostumaram. Depois que eu comecei a fazer tranças as pessoas me tratavam como se eu fosse um animal exótico. Ouvi falar que aquilo não era perfil de advogada e isso é muito difícil e muito frustrante, você ser abordada por colegas de trabalho, por outros juristas, por juízes, e ser tratada dessa forma e ver que é um comportamento normalizado por outras pessoas”, relata a advogada.

    Carolina conta também que esse tipo de situação reflete no seu trabalho na Comissão, na questão de poder dar apoio institucional para os advogados, especialmente os negros que são invisibilizados e vulnerabilizados dentro da advocacia. Para ela, a defesa dos profissionais negros é muito importante, diz respeito à dignidade do trabalho do profissional, o direito de ser respeitado e não ser julgado no desempenho do trabalho pela cor da pele ou por quem a pessoa é.

    Carol também é DJ e produtora cultural
    Carol também é DJ e produtora cultural | Foto: Arquivo pessoal

    "As pessoas não valorizavam o meu trabalho"

    Christiane Eveng, 34, é natural de Camarões, na África, e chegou a Manaus em 2011 para estudar um intercâmbio na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). É formada em Relações Públicas e durante a sua vida sempre priorizou mais os estudos, sempre foi algo que gostava e valorizava, e hoje cursa doutorado. Há seis anos trabalha como trancista, em um estúdio próprio. 

    "As tranças fazem parte da cultura negra, principalmente na África. Eu decidi iniciar aqui e ganhar um dinheirinho, mas não imaginava que ia ter um estúdio. As minhas clientes me levaram a abrir o negócio. Em algum momento eu pensei em desistir porque as pessoas não valorizavam o meu trabalho. As pessoas pensam que como é coisa de preta então é preciso baratear. Ouvi que meus preços estavam muito altos, mas não tem como baratear um serviço que leva horas e horas, e demanda esforço", relata.

    Chris dá espaço de trabalho a outras trancistas negras
    Chris dá espaço de trabalho a outras trancistas negras | Foto: Lucas Silva

    Para ela, conseguir superar a falta de reconhecimento da sociedade foi muito importante, principalmente porque ela tem a oportunidade de gerar emprego a outras mulheres pretas. Ela percebe ainda o preconceito quando as pessoas a veem e acham que ela possui apenas escolaridade básica.

    "Cada trabalhador merece um salário, não migalha. Em qualquer profissão. As pessoas pensam que só porque eu sou trancista eu não tenho estudo, não imaginam que eu sou formada, e só descobrem quando vão ao meu estúdio. Eu fico satisfeita, fico feliz, em poder ensinar as meninas que trabalham aqui e depois têm a oportunidade de trançar fora do meu estúdio, ganhando o dinheirinho delas", conta a trancista.

    Para ela, conseguir superar a falta de reconhecimento da sociedade foi muito importante
    Para ela, conseguir superar a falta de reconhecimento da sociedade foi muito importante | Foto: Lucas Silva

    "Nunca foi fácil ter meu lugar de fala"

    Professora, pesquisadora, negra, feminista e membro fundadora da Associação das Crioulas do Quilombo Urbano de São Benedito, Rafaela Fonseca, 46, conta que não foi fácil chegar onde está agora, encontrar sua estabilidade profissional, ter sua voz. Ela conta que ainda hoje precisa enfrentar muitos desafios.

    “Enfrentei todas as dificuldades e ainda hoje enfrento para provar todo tempo, estudando, que eu sou capaz de estar onde estou. Nunca foi fácil ter meu lugar de fala, na sala de aula já houve momentos em que quiseram me desrespeitar, porém não dei brecha para qualquer tipo de brincadeira ou desrespeito. Sempre me impus”, relata Rafaela.

    Em uma das situações que se recorda, ela conta que percebeu que foi tratada diferente pela sua cor, em uma entrevista de emprego. “Sobre sofrer racismo em entrevista de emprego eu já fui colocada para esperar sendo que a entrevista era por hora marcada, e pessoas com a pigmentação mais clara que a minha passaram na frente, sendo que cheguei 20 minutos antes do horário e já estava na hora estipulada, e mesmo passaram na minha frente porque estavam bem vestidas e o pessoal dava a desculpa por causa de trânsito”, conta.

    Em outro momento, ela relata que já deixou de conseguir uma vaga de emprego claramente por conta da sua cor. Ao chegar na entrevista, percebeu que foi realizada rapidamente, com pressa, e logo deram a desculpa que o lugar já havia completado o quadro de funcionários. Para Rafaela, foi importante ter como base a família, que a ajudou a enfrentar todas as situações. “Foi importante a base da família que eu tenho. As mulheres negras e homens negros que nunca nos deixaram intimidar. Agradeço a essa base”, conta.

    Rafaela é professora e lutou muito pela sua voz e espaço
    Rafaela é professora e lutou muito pela sua voz e espaço | Foto: Arquivo pessoal

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