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    Cultura brasileira


    Manauara leva arte e filosofia da capoeira para o mundo

    Capoeirista Ângelo Oliveira, conhecido como 'Capacete' já apresentou a capoeira em países como Jamaica, Coreia do Sul e Espanha

    Itália, jamaica e Espanha são alguns dos países onde Ângelo já ensinou capoeira
    Itália, jamaica e Espanha são alguns dos países onde Ângelo já ensinou capoeira | Foto: Reprodução/Instagram
     

    Manaus - 'Do Amazonas para o mundo' é o slogan da

    Escola Matumbé Capoeira, a primeira do Amazonas a transmitir a capoeira para outros países. Mas também poderia ser o lema do contramestre capoeirista Ângelo Oliveira, o “Capacete”, que há mais de 20 anos se dedica a levar arte e filosofia da capoeira aos quatro cantos do mundo. 

    Ângelo teve o primeiro contato com essa arte na infância. Aos 12 anos, começou os treinos com o Mestre Ricardo "Camisa Furada" no Grupo Berimbau dos Palmares onde recebeu sua primeira graduação e apelido. Depois, passou a treinar com o Mestre KK Bonates, fundador da Matumbé, de quem é discípulo até hoje. As aulas eram parte de um projeto social para crianças carentes na Vila Olímpica de Manaus, iniciativa que perdura até hoje. 

    Ângelo conheceu a capoeira na infância
    Ângelo conheceu a capoeira na infância | Foto: Valdeniza Vasques
     

    Ângelo já deu aulas em países como a Coreia do Sul, Tailândia, Jamaica, Alemanha e Espanha. Atualmente, o contramestre mora em Roma, onde administra a base italiana da Escola Matumbé com aproximadamente 50 alunos. No entanto, não esquece suas raízes - e nem poderia, já que a capoeira existe, nas palavras dele, “para nos lembrarmos de onde viemos e quem nós somos”. 

    Além do esporte

    Engana-se quem pensa que a capoeira é apenas uma luta. Como  Ângelo explica, a capoeira é uma expressão cultural brasileira, que envolve elementos como dança, musicalidade, arte marcial e cultura popular.

    “Resumir a capoeira ao ponto esportivo é empobrecê-la. Capoeira é uma cultura, é a expressão do negro, do índio, com toda uma bagagem ancestral. É uma identidade cultural e também é a voz das pessoas que às vezes não se compreendem”, define o capoeirista

    Por meio da capoeira, o contramestre Capacete ajuda a transformar vidas
    Por meio da capoeira, o contramestre Capacete ajuda a transformar vidas | Foto: Valdeniza Vasques
     

    Isso é explicado pela própria origem da manifestação cultural, desenvolvida pelo povo negro escravizado no Brasil do fim do século XVI. A mistura de dança e luta virou ferramenta de resistência ao longo dos anos e hoje é considerada exportadora da cultura brasileira para o mundo. Em 2014, a roda de capoeira tornou-se patrimônio cultural imaterial da Unesco e está presente em quase 200 países.

    Para  Ângelo, a capoeira permite ao brasileiro conhecer a própria história. “O brasileiro é estrangeiro em sua própria terra na maioria das vezes. Vemos isso em todas as classes sociais. Quando a capoeira entra na vida de alguém, traz ancestralidade, valor histórico e bagagem cultural. Faz com que a pessoa queira se conhecer melhor”, declara. 

    “Capoeira é cultura, história. É uma luta da memória contra o esquecimento. É importante para nós lembrarmos de onde viemos e quem nós somos”, acrescenta.

    Ancestralidade e filosofia

    O contramestre explica que a capoeira tem muitas belezas e um potencial transformador de realidades. Não é à toa que impacta tantas pessoas que se dedicam a ela. Para além da prática, a manifestação também é filosofia de vida

    “Pensar capoeira é um modo de interpretar a vida. É filosofia porque nasceu quando o negro se revoltou e quis a liberdade. Então é uma forma de saber que fazemos parte de um sistema, mas como não nos aprisionar a ele. É saber que viemos de uma cultura humilde e oprimida, mas que podemos lutar para ser livres de muitas formas”, diz.

     Ângelo ainda explica a diferença entre ser capoeira e ser capoeirista. “Ser capoeira significa que a pessoa é praticante da arte. O capoeirista tem uma doação maior, dedicação em tempo integral. Ele sente e faz parte daquela arte. O capoeirista tem um compromisso de vida, de plantar a semente da capoeira onde ele for”, relata.

     

    O projeto Matumbé existe no Prosamin Mestre Chico I, no bairro Cachoeirinha, e beneficia crianças e adolescentes em vulnerabilidade socioeconômica
    O projeto Matumbé existe no Prosamin Mestre Chico I, no bairro Cachoeirinha, e beneficia crianças e adolescentes em vulnerabilidade socioeconômica | Foto: Valdeniza Vasques
     

    Pelo mundo

    Escolas da Bahia e do Rio de Janeiro têm a tradição de enviar capoeiristas para o exterior.  Ângelo foi o primeiro amazonense a levar a capoeira para fora do país. Na Jamaica, em 2006, foi um dos pioneiros na introdução da modalidade na ilha caribenha. Durante essa trajetória, fez muitos amigos pelo mundo.

    Em 2009,  Ângelo chegou ao continente europeu e implantou mais um núcleo da Matumbé em Barcelona, na Espanha. Há 6 anos, fixou a base em Roma, na Itália, e atua como representante internacional da escola. Durante a carreira profissional, já passou por países como Coreia do Sul, Tailândia, Jamaica, Alemanha, Islândia, Itália, Holanda, França, Finlândia, Bélgica, Suécia, Espanha, Inglaterra, Suíça, Cabo Verde e Japão. 

    Cenário amazonense

    Apesar do sucesso da Escola Matumbé ao redor do mundo, a capoeira dentro do próprio Amazonas ainda sofre com o preconceito e a falta de políticas públicas de incentivo à modalidade. Em Manaus, aproximadamente 30 grupos dedicam-se a projetos voluntários que ajudam jovens e adultos em situações de vulnerabilidade socioeconômica.

    Dentro do Prosamin Mestre Chico I, na Cachoeirinha,  Ângelo implantou um núcleo da Matumbé. As rodas acontecem nas segundas e quartas-feiras e atraem um grande número de participantes. Para o contramestre, o que falta é uma difusão maior da arte na região.

    O projeto Matumbé existe no Prosamin Mestre Chico I, no bairro Cachoeirinha, e beneficia crianças e adolescentes em vulnerabilidade socioeconômica
    O projeto Matumbé existe no Prosamin Mestre Chico I, no bairro Cachoeirinha, e beneficia crianças e adolescentes em vulnerabilidade socioeconômica | Foto: Valdeniza Vasques
     

    “Nosso Amazonas tem muito potencial e grandes talentos. O que falta é oportunidade e orientação”, argumenta o contramestre. “O mercado da capoeira no mundo é gigantesco, mas Manaus não conhece isso. Queremos prepará-los para essa demanda e mostrar que é possível viver com dignidade por meio da capoeira”. 

    Para ajudar nessa empreitada,  Ângelo está iniciando o projeto “Adote um aluno” com objetivo de encontrar patrocinadores para jovens capoeiristas. “Tem alunos que não podem treinar, porque não tem o que comer. Isso é inadmissível”, expõe. A iniciativa seria uma forma de possibilitar a continuidade desses alunos na modalidade.

    Legado

    Com uma trajetória tão longa, é natural que o maior orgulho de Ângelo como capoeirista sejam as vidas que ele transformou por meio dessa expressão cultural.  “Tenho alunos de 30, 32, 35 anos que tirei do crime e da violência, cujas vidas acompanhei de forma intensa. Vi crianças e adolescentes tornarem-se adultos sem caírem no mundo da criminalidade. A maioria conseguiu estudar e tornaram-se pessoas do bem. Essa é minha maior conquista”, afirma.

    “Saber que elas são gratas, não porque eu levantei a perna, mas porque eu ensinei essa criança a plantar bananeira e olhar o mundo de um outro ângulo. Ter uma outra opinião do que é ser humano. Todas as pessoas que passaram por mim levaram um pouco de mim com eles”, finaliza.

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